Daniel Eisenberg e a Produção do Sentido da História a partir de Displaced Person.
Oct12

Daniel Eisenberg e a Produção do Sentido da História a partir de Displaced Person.

Daniel Eisenberg é um cineasta exemplar. O seu trabalho se situa na fronteira das práticas frequentemente julgadas incompatíveis. Ao cinema pessoal, ele confere uma dimensão documentária; à dimensão pessoal ele impõe grades e estruturas formais; ele brinca assim com os gêneros misturando formas frequentemente opostas que fazem alternar ou se sobrepor estratos de discursos distintos. Além disso, esses filmes se caracterizam por uma forte dimensão reflexiva se espalhando segundo vários eixos que vão se conjugar: a questão da história, a presença da história nas paisagens urbanas contemporâneas, a dimensão pessoal nas histórias, a questão da memória e do arquivo, a questão do documento. Nenhum dos filmes que ele dirigiu até hoje se finaliza numa certeza, numa verdade, mas o filme nos propõe um caminho através dessas instâncias nas quais a cidade e a história são examinadas através de um prisma pessoal que não se impõe como uma visão e uma expressão romântica de um sujeito em busca de sua identidade, embora a questão da identidade seja preponderante [predominante] nesse filme ela não se resume à constituição de uma identidade, mas como se pode entender na trilha sonora de Cooperation of Parts (1987) (Cooperação das partes) «Se eu tivesse que criar minha identidade eu poderia facilmente me encontrar com uma falsa ideia.» Com isso, o cineasta reconhece nossa aptidão quanto a sua produção, mas como o releva justamente Mar McElthatten, nós não somos os únicos detentores e autores de nossa personalidade, da nossa identidade, de fato; nós somos uma cooperação de partes (1). A identidade se revela então uma construção, ela não é dada. « Por onde nós vamos nós não podemos nos desfazer do nosso eu.» Tal é o conteúdo da terceira legenda de Cooperation of Parts sobre um desfile de paisagens tomado da janela de um trem entre a França e a Alemanha e que é retomado oralmente durante a visita de um dormitório de um campo de concentração (Dachau). Dan Eisenberg vem de um outro tempo, ele começa a fazer filmes a partir de 75 e de outro horizonte cinematográfico, ele é de fato durante vários anos montador de vários documentários para a televisão pública americana em Boston, ele compartilha com cineastas como Ernie Gehr, Yvonne Rainer, James Benning preocupações formais que serão o motor do filme, assim como ele manifesta um interesse pelo documento, o arquivo, como o releva Jeffrey Skoller (2), articulando essas dimensões segundo a forma do ensaio como se encontra em vários cineastas contemporâneos de Chris Marker passando por Chantal Akermen. Seus filmes se impõem pelas suas formas originais a uma estética da colagem e da justaposição de elementos disparatados que lhes fazem...

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A influência de Guy Debord no cinema experimental e na videoarte II
Oct12

A influência de Guy Debord no cinema experimental e na videoarte II

A afirmação de um sujeito, a sua posição referente à crítica das mídias será questionada de várias maneiras em Amerika (1972-83). A construção em mosáico, com partes recorrentes tais como motivos espalhados no fluxo do filme, toma como sujeito os bancos de imagens. Nesse filme Al Razutis questiona de maneira plural a iconografia das mídias roubando [pilhando] os bancos de dados e de imagens de arquivos opondo-os aos instrumentos de percepção e de transformação. Ele mistura vários registros visuais e níveis de discursos que questionam as ideologias de massa sobrepondo modos de visão distintos que se afirmam, se contradizem, comentando as partes que o antecedem. Essa construção aparenta-se mais a uma desconstrução no sentido derridiano, quer dizer revelando as confusões, decalagens de sentido que a omnipresença das mídias contemporâneas induz, escravizando e vitimizando o espectador. Não se poderá dizer que Amerika foi influenciado pelo situacionismo, ele participa da época e na sua osculação do mundo espetacular aparenta-se a interrogações e coloca as mídias em situações. A sequência (The Wildest Show) (O espetáculo mais selvagem) na qual as imagens de arquivos (guerra do Vietnam, Segunda Guerra Mundial, execução, jogo TV…interrompidos por spots de propaganda, eles mesmos desviados visualmente pelo meio de textos colocados sobre as imagens) e slogans são incorporados a painéis publicitários. Inscrição nas paisagens urbanas de slogans e documentos que os parasitam. Essa invasão das imagens, e a sua encenação espetacular antecipam a invasão móvel da imagem em movimento. Na encruzilhada de um questionamento sobre a arquitetura e as modalidades de ocupações dos espaços por e dentro da imagem, o filme propõe várias modalidades e critica essa contaminação icónica. A cidade se revela através da apropriação dos espaços publicitários aos quais respondem a proliferação de grafos que se opõem, desviam, contaminam em camadas as paisagens abandonadas ou os lugares simbólicos de conglomerados, de instituições segundo travellings laterais de três sequências de Motel / Row. Na versão tripla tela desse filme, o trabalho, a discrepância, é fortalecida pela justaposição e a vertigem aparente induzida pelas três trilhas sonoras simultâneas, que ativam e afiam nosso olhar. Esse filme soma, compartilha algumas das interrogações de Kirk Tougas que, em dois filmes da mesma época, implanta um questionamento relativo às mídias, em Politics of Perception (1973) (Políticas de percepção), fazendo um trailer de um filme com Charles Bronson (The Mechanic- O mecânico) enquanto em Letter from Vancouver (1973)i (Carta de Vancouver) depois de uma primeira parte voltada para as mídias (tais como propaganda, cinema, televisão) e no Canadá usando um slogan do partido liberal canadense; o filme assenta uma experiência. Essa experiência próxima a de L’anticoncept (1952) (O anticonceito) de Gil Wolmaniiou das de Peter Kubelka...

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Tempo das Imagens
Oct08

Tempo das Imagens

Ciclo de Cinema Experimental Ação promovida por B³ com apoio da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundação Joaquim Nabuco, apresenta um ciclo de 12 palestras de 2 a 3 horas cada, nas quais o cineasta e ensaísta yann beauvais desenvolve temas sobre a imagem em movimento. 23 de Abril 2013 Paul Sharits ou a ampliação do cinema Nasceu em 1943 e morreu em 1993. Paul Sharits é sobretudo conhecido como cineasta. Contudo, a sua prática não se limitou ao campo cinematográfico. A pintura, o desenho, a escultura e as performances têm uma forte presença em seu trabalho, freqüentemente ignorada e no entanto essencial se quisermos compreender a amplitude e singularidade de seu trabalho artístico. Ele foi um dos primeiros cineastas a ampliar o cinema para galeria com instalações e partituras. 07 de Maio 2013 Filmes de viagem entre turismo e colonialismo Peter Kubelka, Cécile Fontaine, Lisl Ponger… Do caderno de notas ao filme de viagem, os cineastas se interessam em mostrar os espaços e os lugares que eles descobrem. Os filmes refletem situações das quais os cineastas tiveram uma consciência tardia. A descoberta de lugares e habitantes marcam a fascinação de outro como exótico. 21 de Maio 2013 Su Friedrich e a questão da autobiografia Nasceu em 1954 investigou, ao longo dos anos 70, 80 e 90, novas formas de representação, misturando com a autobiografia estruturas formais que ela subverte, isto em busca de uma alternativa aos modelos patriarcais também dominantes no cinema de vanguarda. Com Peggy Ahwesh, Leslie Thorton, Su Friedrich participam da formidável explosão de uma nova geração de cineastas feministas américanas. Com Barbara Hammer, Jane Oxemburg, Pratibha Parmar, ela vai abrir novas possibilidades para afirmar uma estética lésbica. 28 de Maio 2013 Mudança do privado do cinema experimental a intenet O cinema experimental documentou a vida de uma pessoa, de um grupo. A irupção do vídeo aumentou esta produção pessoal. Com a democratização do acesso aos intrumentos de filmagem e a multiplicação de canais de televisão (livres, públicas…) para mostrar os trabalhos. A Internet vai ampliar este acréscimo na difusão e ao mesmo tempo refletir a transformação de noções do íntimo e do privado. 11 de Junho 2013 Os filmes de Mark Morrisroe Nasceu em 1959, moreu em 1989. Conhecido como um membro da escola de fotografia de Boston com Nam Goldin, Jack Pierson, Mark Morrisroe escolheu a Polaroid como instrumento privilegiado de seu trabalho para criar um tipo de fotografia onde o grafismo e a manipulação transformam a foto inicial. Ele documentou sua vida e seu mundo com os polaroids, com seus filmes super 8, as provocações ao bom gosto e as...

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Malcolm Le Grice em contexto
Oct08

Malcolm Le Grice em contexto

O trabalho de Malcolm Le Grice contextualizado com trabalhos de  David Crosswaite, Gill Eatherley,  Peter Gidal, Birgit & Wilhelm Hein, Annabel Nicholson e William Raban. Com filmes de: Annabel Nicholson : Slides , 1970, 11′ Gill Eatherley : Hand Grenade, 1971, cor, som,  8′ David Crosswaite : Film n°1, 1971, 10′ William Raban : Diagonal, 1973, cor, som Peter Gidal : Hall , 1968-69 , p&b, som, 8′ Birgit & Wilhelm Hein : Rothfilm , cor som, 1968 A mostra de filmes visa apresentar a vitalidade da cena inglesa nos 60’s e 70’s, muito dinâmica. A criação de uma cooperativa de distribuição de filmes e o laboratório da London Filmmakers Co-op estimula a produção e conversas entre os cineastas que trabalham a questão da materialidade do filme e desenvolvem o cinema expandido. Le Grice, cineasta dos mais importantes da cena inglesa desde os anos 60, é pioneiro do “filme estrutural” na década de 1970 e apresentou seu primeiro vídeo e trabalho em computador na década de 1960. Com suas obras e escritos, é um agente do cinema experimental. Em 13 de Outubro 1966, foi criado a London Filmmakers Cooperative na libraria Better Books em Londres. Bob Cobbing, Steve Dwoskin, Simon Hartog e Harvey Matusow, Jeffe Keen foram os fundadores desta cooperativa que parecia mais como um lugar mostrando filmes que um distribuidor de filmes experimentais. O modelo da cooperativa era a de Nova York iniciada pela irmãos Mekas em 1962. Um jornal Cinim foi lançado ao mesmo tempo que a possibilidade de distribuir filmes experimentais estrangeiros e em Inglês. Bob Cobbing organizava desde 1965, mostras de filmes experimentais na libraria Better Books eem  outros lugares. A Cooperativa mostrava filmes e nos anos seguinte a sua criação atraiu membros  como David Curtis (que programa no Drury Lane Arts Lab e depois na cooperativa desenvolveu setores no British Arts Council), e com jovens como Malcolm Le Grice e Peter Gidal. Até Agosto 67 as mostras de filmes estavam ocorrendo na Libraria Better Books. Com o impulso de Malcolm Le Grice e David Curtis incrementou um polo produtivo na cooperativa para permitir a produção de filmes experimentais na Inglaterra. Existia um cinema experimental em fase o com os movimento e a contra cultura seja na sexualidade, nas drogas e na política ou nas artes, com o assemblagem, as colagens, a destruição (devemos lembrar que em 1961, Gustav Metzger publicou o Manifesto : Auto-Destructive Art e em Setembro 1966, foi realizado o Destruction in Art Symposium, com intervenções e filmes de Yoko Ono, John Latham, Kurt Kren ). Artistas como Jeff Keen, John Latham, estavam trabalhado na tradição dadaista, anarquista, ou da Pop...

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Beacon / legendas
Oct01

Beacon / legendas

BEACON   Christoph Girardet & Matthias Müller 2002 cor som, 15′ Por mais que viajemos para o interior, o som da água permanece dentro de nós, chamando-nos de volta. O navio estava cheio antes de esquerda, e as pessoas reuniram-se no convés ; junto ao corrimão para nos verem pela última vez, para verem o seu lar pela última vez. Partiram uma hora depois.. O horizonte … Não aponta em nenhuma direção mas leva-nos ao desconhecido. Foge diante de nossos olhos, desaparecendo à medida que o procuramos alcançar. Tudo em seu lugar, de forma ordenada, todos os navios têm um comandante, assim como todas as paisagens têm o seu projetista. O horizonte não é uma questão de acaso ; foi calculado , medido e aplicado. És capaz de ter nascido aqui só que já não te lembras. Foi tudo arrastado pelas marés. As crianças reúnem-se aqui quando a maré sobe. Partiam um boato que diz que os estúdios de Hollywood despejaram as fitas antigas no Oceano Pacífico por ser a forma mais barata de se livram delas. É  por isto que esperamos ? Uma imagem do passado,  uma velha história tirada de um arquivo de algas e estrelas silenciosas ? Num filme, um homem e uma mulher conhecem-se por acaso no « ferry » de Staten Island. É noite, cerrada e ambos decidiram, não de forma concertada,que tinham chegado ao fim, que não agüentavam mais. Por breves instantes, no fundo do mar, conseguem realizar as suas fantasias. À noite, depois de se terem ido embora, os peixes irão reúnem-se na escola para falar dos visitantes, que são feitos de água mas não conseguem viver nela. Será que esta paisagem … se lembra? Uma visão aberta, o tipo de varanda que encontramos nos filmes de realizadores italianos. E  daqueles sítios onde imaginamos coisas a acontecer ; só que quando os vemos pessoalmente, descobrimos que nunca nada acontece. Somos  experiências em movimento, aprendemos os mesmos gestos ; vezes sem conta, como nos filmes de Busby Berkeley. Uma enorme fila de coristas.. Os aviões deixam um rasto à sua passagem, uma espécie de escrita… Um vestígio branco, que lhes lembra de onde vieram, recordações da partida. Ou somos viajantes nos tempos antigos, ou somos viajantes no nosso quotidiano, correndo desenfreados de uma realidade desaparecida. Já  não sonhamos com tempestades nem com grandes acontecimentos.. Nós Agora, só sonhamos com lugares. Tradução  B³...

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